quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O PRAZER DA LEITURA

       


                                                                                                                  Rubem Alves

      Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de "alfabeto". "Alfabeto" é o conjunto das letras de uma língua, colocadas numa certa ordem. É a mesma coisa que "abecedário". A palavra "alfabeto" é formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: "alfa" e "beta". E "abecedário", com a junção das quatro primeiras letras do nosso alfabeto: "a", "b", "c" e "d". Assim sendo, pensei a possibilidade engraçada de que "abecedarizar", palavra inexistente, pudesse ser sinônimo de "alfabetizar"...

      "Alfabetizar", palavra aparentemente inocente, contém a teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as sílabas. Depois, juntando-se as sílabas, aparecem as palavras...



      E assim era. Lembro-me da criançada a repetir em coro, sob a regência da professora: "bê-á-bá; bê-e-bê; bê-i-bi; bê-ó-bó; bê-u-bu"... Estou a olhar para um postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de redação: uma menina deitada de bruços sobre um divã, queixo apoiado na mão, tendo à sua frente um livro aberto onde se vê "fa", "fe", "fi", "fo", "fu"...



      Se é assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da música se deveria chamar "dorremizar": aprender o dó, o ré, o mi... Juntam-se as notas e a música aparece! Posso imaginar, então, uma aula de iniciação musical em que os alunos ficassem a repetir as notas, sob a regência da professora, na esperança de que, da repetição das notas, a música aparecesse...

      Toda a gente sabe que não é assim que se ensina música. A mãe pega no bebê e embala-o, cantando uma canção. E a criança percebe a canção. O que o bebê ouve é a música, e não cada nota, separadamente! E a evidência da sua compreensão está no fato de que ele se tranquiliza e dorme – mesmo nada sabendo sobre notas!



      Eu aprendi a gostar de música clássica muito antes de saber as notas: a minha mãe tocava-as ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabeça. Somente depois, já fascinado pela música, fui aprender as notas – porque queria tocar piano. A aprendizagem da música começa como percepção de uma totalidade e nunca com o conhecimento das partes.

      Isto é verdadeiro também sobre aprender a ler. Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. A criança volta-se para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los – porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está a ler.


      Num primeiro momento, as delícias do texto encontram-se na fala do professor. Usando uma sugestão de Melanie Klein, o professor, no ato de ler para os seus alunos, é o "seio bom", o mediador que liga o aluno ao prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.



      Antes de ler Monteiro Lobato, eu ouvi-o. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro...

       Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, a ler para o filho... Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afetiva da criança. Na ausência da mãe ou do pai, a criança olhará para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre as portas de um mundo maravilhoso!



       Roland Barthes faz uso de uma linda metáfora poética para descrever o que ele desejava fazer, como professor: maternagem – continuar a fazer aquilo que a mãe faz. É isso mesmo: na escola, o professor deverá continuar o processo de leitura afetuosa. Ele lê: a criança ouve, extasiada! Seduzida, ela pedirá: Por favor, ensine-me! Eu quero poder entrar no livro por minha própria conta...

       Toda a aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontece. Há aquele velho ditado: É fácil levar a égua até ao meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber. Traduzido pela Adélia Prado: Não quero faca nem queijo. Quero é fome. Metáfora para o professor.



      Todo o texto é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele desliza sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto apossa-se do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se luta com as palavras, se não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos logo que ela acabe.


       Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática dos "concertos de leitura". Se há concertos de música erudita, jazz – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão o prazer de ler.



      E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de termos sido tocados pela sua beleza, é impossível esquecer. A leitura é uma droga perigosa: vicia... Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é só deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos – gramática, usos da partícula "se", dígrafos, encontros consonantais, análise sintática – que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto. E a missão do professor?



      Acho que as escolas só terão realizado a sua missão se forem capazes de desenvolver nos alunos o prazer da leitura. O prazer da leitura é o pressuposto de tudo o mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo. Mas o que vejo a acontecer é o contrário. São raríssimos os casos de amor à leitura desenvolvido nas aulas de estudo formal da língua.



      Paul Goodman, controverso pensador norte-americano, diz: Nunca ouvi falar de nenhum método para ensinar literatura (humanities) que não acabasse por matá-la. Parece que a sobrevivência do gosto pela literatura tem dependido de milagres aleatórios que são cada vez menos frequentes.



      Vendem-se, nas livrarias, livros com resumos das obras literárias que saem nos exames. Quem aprende resumos de obras literárias para passar, aprende mais do que isso: aprende a odiar a literatura.
Sonho com o dia em que as crianças que lêem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objeto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.






Fonte:
Rubem Alves
Gaiolas ou Asas – A arte do vôo ou a busca da alegria de aprender
Porto, Edições Asa, 2004






segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Ensinar crianças

As crianças são como esponjas. Absorvem tudo o que fazemos, tu do o que dizemos. Aprendem conosco o tempo todo, mesmo quando não nos damos conta de que estamos ensinando. Assim, quando adotamos um comportamento crítico – reclamando delas, dos outros e do mundo em torno de nós –, estamos lhes mostrando como condenar e criticar os outros. Estamos ensinando a ver o que está errado no nundo, e não o que está certo. 

Dorothy Law Nolte


domingo, 26 de novembro de 2017

Crianças e suas emoções – A construção da autoestima positiva – Como pais e professores podem ajudar



O que faz com que crianças,
cada vez mais cedo, sintam-se piores que outros e cheguem até à  depressão?

Autoestima é o quanto uma pessoa se valoriza e acredita ter importância na vida dos que convivem com ela e para o mundo. Está ligado a quão capaz ela se sente.

É muito importante entender o quanto cuidar dos sentimentos de uma criança pode torna-la mais forte ou mais fraca no futuro.
Crianças que se sentem valorizadas e aceitas, são mais propensas a pedir ajuda quando precisam, simplesmente por acreditarem que merecem. 

Em tempo de liberdades e discussões confusas sobre o que as pessoas podem ou não escolher, crianças bem orientadas, confiantes e seguras sobre quem são tornar-se-ão adultos mais capazes de enfrentar e gerenciar seus desafios, inclusive os de aprendizagem.

Principais características das crianças com autoestima positiva:


Sentir-se respeitada é a primeira e mais importante característica de pessoas com a autoestima positiva. E dessa dependem todas as outras:
·         São resilientes e sentem-se seguras, mesmo quando cometem erros;
·         Costumam sentir-se no controle de suas atividades;
·         São mais independentes;
·         Assuma a responsabilidade por suas ações
·         São confortáveis ​​e seguros na formação de relacionamentos. Não possuem o senso de inferioridade, e, por isso são livres de sentimentos como inveja, superioridade, raiva, ansiedade e competição exagerada;
·         Produzem bons sentimentos, tais como satisfação, bem-estar, alegria, prestatividade;
·         Desenvolvem comportamentos de tomar iniciativa de enxergar e resolver problemas sem se vitimizar;
·         Têm a coragem de acreditar e expor seus valores e sentimentos, e assim são capazes de tomar boas decisões, mesmo em face da pressão dos outros: pais, professores, família, amigos e sociedade.

Problemas de aprendizagem derrubam autoestima


Crianças com problemas de aprendizagem e atenção muitas vezes lutam para desenvolver e manter a autoestima positiva. Não é que nunca tenham sucesso, no entanto suas experiências são inconsistentes.
Alguns trabalhos escolares podem parecer impossíveis de fazer. Às vezes, os filhos com problemas de aprendizagem e atenção são aceitos pelos colegas. Mas outras vezes, eles são alvo de brincadeiras cruéis, até por parte de pais e professores .
Como resultado, as crianças com problemas de aprendizagem e atenção podem tornar-se cada vez mais incertas sobre suas próprias habilidades.  Podem ficar inseguros de como reagir aos desafios.
Reconstruir autoestima é possível. As crianças podem aprender a melhorar a forma como veem e se valorizam.


O preço da baixa autoestima


Crianças com baixa autoestima podem não acreditar que sejam dignas de um bom tratamento. Porque se sentem dessa maneira, pedem ajuda e não se defendem por acreditar que merecem o que sofrem. mesmos. 
Crianças com baixa autoestima podem ter problemas para ganhar a confiança que precisam para enfrentar e lidar com seus problemas de aprendizagem. 

Algumas reações de crianças com autoestima negativa:


    ·      A falha repetida pode levar a sentimentos de frustração, como por exemplo raiva, ansiedade, tristeza, desleixo, inatividade, entre outros.

    ·      Crianças nessa situação geralmente perdem o interesse em aprender.

    ·      Podem se tornar mais vulneráveis à pressão dos colegas.

    ·      Podem desenvolver maneiras autodestrutivas de lidar com desafios, pois é mais fácil desistir, evitar, chorar, ficar nervoso, inquieto, agir com violência, desobedecer e negar.


 Como os pais, professores e responsáveis podem ajudar


Entenda como se desenvolve a autoestima positiva nas crianças
Crianças seguras entendem que a vida não é feita só de brincadeiras e alegria. Elas aprendem a desenvolver confiança diante das piores circunstâncias e a entender que tudo é passageiro.

O fundamental para o desenvolvimento da autoestima é o reconhecimento que pais, professores e responsáveis expressam à criança pelos seus comportamentos. Assim, é importante salientar o VOCÊ na frase que explicita o elogio e não apenas o comportamento:

Note os exemplos:

    ·      CERTO: Você me deixou feliz com suas notas.

   ·      ERRADO: As notas do seu boletim me deixaram feliz;

  ·      CERTO: Filho, parabéns, você escreveu um excelente texto;

  ·       ERRADO: Filho, parabéns, seu texto ficou excelente!

   ·      A jogada que você fez foi fenomenal  ;  

   ·      Aquela sua jogada foi fenomenal;

Note que em todas as frases há um elogio, uma forma de reforçar o ato positivo, além de destacar a criança que emitiu o comportamento.
É esse tipo de comunicação que melhor desenvolve a autoestima, uma vez que dá destaque à pessoa e não ao comportamento.


Atenção!



Crianças aprendem o que vivenciam

Cuidado com os critérios de exigência de desempenho estipulados: não se deve usar critérios muito exigentes para gratificar as crianças, pois altas exigências as tornam ansiosos e, futuramente, perfeccionistas consigo mesmas e com os outros.

Exigir o mais que perfeito é um modo imperfeito de educar. Além disso, quando a exigência não é exagerada, a criança executa os deveres sem dificuldades, sentem-se gratificadas e ai sim, é possível aumentar aos poucos, as exigências, até atingir um padrão final de desempenho desejado ainda que a criança cometa erros, pois esses fazem parte da vida e do desenvolvimento humano.

Tudo o que foi exposto não exclui a importância de dar limites para a criança. Assim, dizer não, proibi-la de fazer determinadas coisas, puni-la quando os comportamentos emitidos por ela apresentam riscos para a sua segurança e de outros é parte necessária do desenvolvimento comportamental e emocional de uma criança. É preciso sofrer frustrações e aprender a lidar com elas.

A criança não se sentirá pouco amada porque sofre restrições e eventuais punições que são, claramente, contingentes a comportamentos inadequados. Ela se sentirá ansiosa, insegura, desamparada, se as punições forem inconsistentes - ora um comportamento é punido, ora reforçado.

 Muitas vezes, as reações aversivas dos pais com a criança ocorrem por problemas pessoais deles - alcoolismo, falta de dinheiro, desavenças conjugais, entre outras - sem nenhuma relação de funcionalidade com os comportamentos do filho.

Afinal, é importante que adultos ajudem as crianças a descobrir seus pontos fortes e e suas inteligências. É completamente possível ajuda-las a revelar o melhor em si mesmas e capacitá-las a dominar os desafios que se seguirão pela vida toda..

    Fátima Oliveira

       Especialista em alfabetização, arte educação, leitura e escrita, cotação de histórias, psicopedagoga, com ampla experiência nessas áreas e apaixonada, desde criança, pela arte de ler e escrever, Fátima Oliveira compartilha as melhores práticas para ajudar pais, professores, psicólogos, fonoaudiólogos, bibliotecários, homeshools e demais interessados, a lidar de forma fácil e criativa, com as dificuldades de aprendizagem de crianças e adolescentes.